Mas, de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. E ser feliz pra caralho! (Caio Fernando Abreu)
"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis,vales de silêncio e paraísos secretos." (Antonie de Saint-Exupéry)
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Também me canso, sabe?
Mas você não vê. Não vê, não enxerga, não sente. Não sente porque não me faz sentir, não enxerga porque não quer. A mulher louca que sempre fui por você, e que mesmo tão cheia de defeitos sempre foi sua. Sempre fui só sua. Sempre quis ser só sua. Sempre te quis só meu. E você, cego de orgulho bobo, surdo de estupidez, nunca notou. Nunca notou que mulheres como eu não são fáceis de se ter; são como flores difíceis de cultivar. Flores que você precisa sempre cuidar, mas que homens que gostam de praticidade não conseguem. Homens que gostam das coisas simples. Eu não sou simples, nunca fui. Mas sempre quis ser sua. Você, meu homem, é que não soube cuidar. E nessa de cuidar, vou cuidar de mim. De mim, do meu coração e dessa minha mania de amar demais, de querer demais, de esperar demais. Dessa minha mania tão boba de amar errado. Estou aceitando o fato de que algumas pessoas nasceram para sentir o amor, mas não para viver um. Ah, quer saber? Seja feliz. (Caio Fernando Abreu)
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Remar. Re-amar. Amar.
Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.
(Caio F Abreu)
E quando teu sol for chuva, querida, deixa molhar.
Eu comecei minha faxina. Tudo o que não serve mais - sentimentos, momentos, pessoas - eu coloquei dentro de uma caixa e joguei fora.Tô bem assim, bem indiferente. O coração, um cactus. Não me importo mais. Dane-se! Comigo sempre foi tudo ao contrário mesmo. Mas continuo com aquela velha ideia rondando meus pensamentos. Aquela que diz pra gente não desistir, ir em frente. Afinal, sempre há uma chance de você tropeçar numa coisa maravilhosa pelo caminho. Tô tentando rir um pouco. Tenho aprendido que tudo tem jeito, que o tempo é remédio pra tudo. Vivendo e aprendendo.
(Caio Fernando Abreu)
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Ausência, por Caio F Abreu.
Foi numa dessas manhãs sem sol que percebi o quanto já estava dentro do que não suspeitava. A tal ponto que tive a certeza súbita que não conseguiria mais sair. Não sabia até que ponto isso seria bom ou mau mas, de qualquer forma, não conseguia definir o que senti quando comecei a perceber as lembranças espatifadas pelo quarto. Não que houvesse fotografias ou qualquer coisa de muito concreto — certamente havia o concreto em algumas roupas, uma escova de dentes, alguns discos, um livro.. Mas as miudezas se amontoavam pelos cantos. E o que marcava e pesava mais era o intangível, o que não se podia medir ou descrever. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. A minha mão direita conduzia espaçadamente um cigarro até minha boca. Minha boca sugava uma fumaça áspera para dentro dos pulmões escurecidos. Meus pulmões escurecidos lançavam pela boca e pelas narinas um fio de fumaça em direção ao teto claro, onde meus olhos permaneciam fixos. E minha mão esquerda tocava uma ausência sobre a cama ao meu lado. Não conseguia compreender como conseguira penetrar naquilo sem ter consciência e sem o menor policiamento: logo eu, que confiava nos meus processos, e que dizia sempre saber de tudo sobre mim mesma. Durante algum tempo fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade da maneira mais humana possível: fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem. Não solucionaram. A verdade é que nada ia sanar aquele sentimento.. se sentir sozinho mesmo tendo alguém, tem base? Mas era assim que me sentia, e doía. Mas o tempo é meu amigo, ele vai passar e vai levar consigo essa dor. Enquanto isso vou vivendo assim, desse jeito meio torto que tenho vivido. Meio pelos cantos, vou juntando os cacos e alimentando o peito com o que me resta de concreto em mãos.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Para quando escorrerem as lágrimas.
Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso, às vezes cruel porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará, quem sabe, para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento, te supreenderás pensando algo como: estou contente outra vez. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse é o nosso jeito de continuar: o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência. Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito também, e talvez até te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada - não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - por essa coisa que chamarás com cuidado de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços. Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. Então fingirás. Aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça. Tão perdida ficou no tempo (esse) e pensarás no tempo (naquele) e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais, ou tomar um trem para um lugar desconhecido, ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada pra que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa. Já não é tempo de desesperos. Refreias, quase segura as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim: passou, e eu sobrevivi e estou sobrevivendo.
(Vai Passar, por Caio Fernando Abreu)
sábado, 7 de maio de 2011
Eu voltarei pra você todos os dias.
Os amores de verão terminam por varias razões, mas no fundo todos tem uma coisa em comum: são estrelas cadentes, um momento espetacular de luz nos céus, um vislumbre passageiro da eternidade e, num segundo, desaparecem. Ou não.
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O melhor amor é aquele que nos desperta a alma e nos faz querer mais. Aquele que coloca fogo no coração e traz paz à mente. E foi isso que você me deu. Isso é o que o que esperava dar a você para sempre. Porque eu amo você, Al.
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A razão pela qual a despedida nos dói tanto é que nossas almas estão ligadas. Talvez sempre tenham sido e sempre serão. Talvez nós tenhamos vivido mil vidas antes desta e em cada uma delas nós nos encontramos. E talvez a cada vez tenhamos sido forçados a nos separar pelos mesmos motivos. Isso significa que este adeus é ao mesmo tempo um adeus pelos últimos dez mil anos e um prelúdio do que virá.
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Eu posso ser engraçado se você quiser.. Inteligente, esperto, supersticioso, bravo, um bom dançarino. Eu posso ser o que você quiser. Só me diga o que você quer e eu serei aquilo pra você.
Se, em algum lugar distante no futuro, nós nos virmos, em nossas novas vidas, eu irei sorrir pra você com alegria, e lembrarei de como passamos o verão sob as árvores, aprendendo um com o outro e crescendo no amor. E talvez, por um breve momento, você sinta tudo outra vez também, e irá sorrir, e saborear as recordações que sempre dividiremos. Eu amo você, Allie.
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Não sou nada especial, e disso eu tenho certeza. Sou um homem comum, com pensamentos comuns, e levei uma vida comum. Não há monumentos dedicados a mim e meu nome logo será esquecido... Mas em um aspecto, eu obtive sucesso como ninguém jamais teve. Amei alguém de coração e alma. E isso sempre foi o bastante pra mim.
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Você acredita que nosso amor é capaz de fazer milagres?
Claro, é ele que traz você de volta pra mim todos os dias.
Será que nosso amor seria capaz de nos levar juntos?
Nosso amor é capaz de fazer qualquer coisa.
(Diário de Uma Paixão)
sábado, 16 de abril de 2011
Doidas sempre, santas quando convém.
Vamos lá! Para começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe??? Não, caríssimos, nem ela. Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações, que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos para cá, que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores, que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou a loucura em alguma gaveta, e nem se lembra mais. Santa mesmo, só a Nossa Senhora, mas, cá entre nós, não é uma doidera o modo como ela engravidou? (Não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do.)
Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida... e dá-lhe usar o nosso poder de sedução para encontrar "the big one", aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá pra ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir, às vezes, que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou virar uma cafetina, sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se não tem ao menos três destas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascinante.
Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver Até a Última Gota. Só as cansadas é que recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.
(Doidas e Santas, por Martha Medeiros).
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Conselhos
Aconselhável vadiar pelas praças, respirar o cheiro de pipoca das esquinas, olhar vitrinas, acreditar em Deus, sorrir para desconhecidos. Aconselhável dançar valsa e rock and roll, andar de bicicleta, pular corda, procurar óvnis no céu, alimentar cachorros vagabundos. Aconselhável ser feliz nas simples coisas. (Caio F. Abreu)
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